março 12, 2006

ABC DOS DIAS

* Zecatelhado

A Herança Lusa



"Os Lusitanos são um povo estranho que gosta de se sentar à mesa a beber, a comer, a cantar e a dizer poesia..."

"Relato de um oficial romano durante a ocupação Ibérica"

E como dizia o amigo Jorge:"ASSIM ACONTECEU".... Recebidos num excelente espaço, recheado de apetecíveis iguarias e vinhos da região, reviveram-se porventura ancestrais encontros de bardos que, entre libações e rituais encantatórios perdidos na penumbra densa do tempo, exorcizavam medos, entoando cânticos e poesias à vida e aos afectos, assim transmitindo testemunho à geração vindoura.

Somos, enfim, esse país de poesia e de poetas. Múltiplos, diversificados, truões ou apaixonados, de sorriso aberto à mistura de uma lágrima, em busca da utopia “mesmo na noite mais triste”.

Não há poetas bons nem poetas maus a não ser no mundo limitado e circunscrito da cabeça dos “literatos”. Há, apenas, aqueles a quem a poesia apetece e, por vezes, brota por cada poro do corpo, em cada alento da alma.

Consumi-la-á quem queira – isso é outra história! Agora, o poeta que a sente, que a vive, que a grita, lamechas talvez, talvez grandioso, esse continua a carrear “o facho na treva / ao fundo da mina / e apenas vê o que não ilumina”.

Ali, todos foram iguais e as suas vozes foram ouvidas. Para o bem de todos nós....

Obrigado Jorge

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NAS TERRAS DE HOMERO

* Morfeu

Nuvem de Poetas

Que se passa com esta nuvem de poetas
Seres desvairados e de difícil entendimento
Loucos dotados de palavras sentidas
Condenados a empurrar as pedras do impossível
Aparecem desaparecem alguns teimam
Neste lançar para o vento
As estranhas e sedutoras bizarrias
Que forram tempestuosamente a sua pele
Aprisionando o seu ser amarrotado
Por necessidade de clareza
Água pura e cristalina que deslize
Pela quebrada da existência
Apontando um caminho
Na multiplicidade devoradora de sentidos…
Nuvem de poetas insustentável
Que insistem em aparecer
Que choram e riem em asilo de loucura aberta
Sonhando com casas amplas de liberdade
Desenhando paredes que não se querem
Letras que o tempo apaga
Possíveis esgares de eternidade
Para quê este desvairado agitar de seres doridos
E utopicamente em perdição…
Pobres poetas opacos ou translúcidos
Possíveis mensageiros de um Deus bizarro e distraído…
Poetas…viajantes das nuvens passageiros do vento
Esperando chuva benfazeja para desconfortavelmente se diluírem…
…que se passa com esta nuvem de poetas?...

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POSTAIS

* Lilly Rose

Testamento


TESTAMENTO

À prostituta mais nova
Do bairro mais velho e escuro,
Deixo os meus brincos, lavrados
Em cristal, límpido e puro...
E àquela virgem esquecida
Rapariga sem ternura,
Sonhando algures uma lenda,
Deixo o meu vestido branco,
O meu vestido de noiva,
Todo tecido de renda...
Este meu rosário antigo
Ofereço-o àquele amigo
Que não acredita em Deus...
E os livros, rosários meus
Das contas de outro sofrer,
São para os homens humildes,
Que nunca souberam ler.
Quanto aos meus poemas loucos,
Esses, que são de dor
Sincera e desordenada...
Esses, que são de esperança,
Desesperada mas firme,
Deixo-os a ti, meu amor...
Para que, na paz da hora,
Em que a minha alma venha
Beijar de longe os teus olhos,
Vás por essa noite fora...
Com passos feitos de lua,
Oferecê-los às crianças
Que encontrares em cada rua...

ALDA LARA
Benguela, Angola, 9.6.1930 - Cambambe, Angola, 30.1.1962
Era casada com o escritor Orlando Albuquerque. Freqüentou as Faculdades de Medicina de Lisboa e Coimbra, licenciando-se por esta última. Em Lisboa esteve ligada a algumas das atividades da Casa dos Estudantes do Império. Declamadora, chamou a atenção para os poetas africanos. Depois da sua morte, a Câmara Municipal de Sá da Bandeira instituiu o Prémio Alda Lara para poesia.

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CORROSIVO Q.B.

* Diesel

O Zé das Medalhas


Findo o mandato do pior PR da história da democracia portuguesa não irei fazer nenhum balanço da sua magistratura porque não há muito para dizer. Não tenho qualquer antipatia para com Jorge Sampaio mas os seus mandatos foram para esquecer.

Porque a lista de asneiras seria infindável prefiro realçar outras coisas. Por um lado o que correu bem: Timor. A forma como o PR geriu esta questão parece-me de louvar. Aliás, Timor tem o condão de ser o unico marco positivo da actuação de dois dos nossos mais recentes governantes: Jorge Sampaio e António Guterres. De resto, o magistério de Sampaio foi muito mau (p.e. ainda estou à espera do fim do inquérito instaurado por Souto Moura por causa do célebre "envelope 9" e cujos resultados Sampaio exigiu publicamente que fossem apresentados "urgentemente" - já passaram 2 meses). Este mero exemplo da sua autoridade é demonstrativo da sua maneira de estar em Belém.

Por outro lado, Sampaio notabilizou-se pelas condecorações que atribuiu.
Portugal deve ter o maior indíce per capita de condecorados entre os seus cidadãos e isso deve-se a Sampaio. Para a despedida, também ele recebeu a sua medalha pelos serviços prestados que, como referi anteriormente, foram de grande qualidade. Mas afinal de contas este é o país onde as empresas públicas apresentam resultados anuais negativos e os seus administradores recebem prémios de desempenho.

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CABALISTICAMENTE

* Raio

A caminho do colapso...

A caminho do colapso...
Aqui há uns dois dias a TV deu a notícia de que o Economist tinha feito uma análise da economia mundial e, nessa análise Portugal seria, no ano corrente, o quarto país a contar do fim em termos de crescimento.
Isto é, pior do que Portugal (entre duzentos países) só as Seychelles, Guiana e Zimbabué.
O CIA Factbook, para 2005, deu um panorama um pouco melhor. De entre 214 países ou regiões, Portugal encontra-se a 14 do fim, em 200º lugar.
Depois de Portugal, além dos já referidos temos a Holanda, Itália, Costa do Marfim, etc.
A verificar-se a previsão do The Economist a nossa sitação, que já era má, tende a piorar.
E o que é que nós, cá em Portugal, dizemos a isto? Praticamente nada, a culpa é nossa que não nos soubemos adaptar à globalização ou que somos gastadores, ou que somos corruptos, etc.
Nestas explicações todas há sempre um ponto comum. A culpa é de qualquer coisa mal feita por nós.
É difícil manter esta teoria. A situação é tão má e, pior, nunca na sua história Portugal deve ter estado tanto tempo tão mal que tem de haver uma explicação global.
Quanto mais não seja porque os tais problemas que afectariam o nosso crescimento também afectam os outros, porventura em escala muito maior.
Sim, a explicação tem de ser muito mais abrangente, tem de ser que a estratégia de desenvolvimento que nós seguimos está errada, sim, que a estratégia de desenvolvimento baseada na adesão a tudo que é europeu não é a mais apropriada para as realidades nacionais.
Até à data apostou-se a fundo na adesão à CEE/CE/EU, ao Mercado Unico e à Moeda Unica (Euro).
Esta altura devia ser uma altura de balanço, uma altura em que desapaixonadamente se analisasse se estas adesões todas foram ou não benéficas para a economia portuguesa e se devia continuar no mesmo caminho.
Tudo indica que isto não irá ser feito.
Ainda hoje vem nos jornais e foi dito na rádio que Portugal foi o país que menos beneficiou com o Euro e apontam-se para este falhanço as más políticas orçamentais.
Ora, ainda antes da adesão ao Euro foram publicados documentos, até pela Comissão Europeia, que indicavam que Portugal seria o país que menos beneficiaria com o Euro. Li mesmo um estudo de um Director do Centre National de Recherche Scientifique (francês) que chama a atenção de um curioso paradoxo, o de que a oposição ao Euro era mais forte nos países que mais beneficiariam com o Euro (Alemanha, Aústria) e mais fraca nos países que não tinham nada a ganhar com o Euro (Portugal, por exemplo).
E é isto que está a acontecer, a política da integração Uber Alles está a destruir a economia portuguesa. É necessário parar imediatamente com ela.
Mas o problema é outro, quem é que o irá fazer? Quais serão os políticos e economistas com coragem para nos dizer desculpem lá, à malta, enganamo-nos e com o nosso engano pusemos o país de pantanas...

Para termos uma pequena ideia do que nos irá acontecer podemos ver o que aconteceu à Argentina.
A Argentina praticamente dolarizou o país prendendo o Peso argentino ao dólar.
O cambio era fixo, as conversões peso-dólar, dólar-peso era legais e fáceis e as taxas de juro eram as do dólar.
No princípio foi um sucesso e os políticos e economistas que lançaram este sistema foram largamente aclamados. Depois veio o caos e ao fim de dez anos a economia implodiu. Felizmente a Argentina (ao contrário de Portugal) trabalhou sempre com rede mantendo o peso em circulação. Assim conseguiu desvalorizar o Peso e acabar com a dolarização da economia. Isto aconteceu há uns quatro anos. Actualmente a Argentina tem a sua economia a subir a 8,2% ao ano e encontra-se, na tabela do Cia Factbook, a par de Macau num 17º lugar.
Será que teremos de esperar pelo colapso da nossa economia para voltarmos a progredir ou então podemos evitar esse colapso começando já a alterar a desastrada estratégia de integração europeia que temos seguido?

Posted by Zecatelhado at 01:45 PM | Comments (24) | TrackBack

TUTO B(U)ONO

* Golfinho

U2 no Brasil

U2 no Brasil


Estive no Brasil na semana passada para assistir os dois concertos dos U2. No do dia 20 fiquei na arquibancada, bem em frente ao palco, no do dia 21 fiquei na pista perto do local onde o Bono toca tambor no final de Love and Peace or Else.
O palco era ligeiramente diferente do de Lisboa.
Segue abaixo o meu relato sobre o que senti. Está bastante pessoal, mas optei por deixá-lo assim em vez de fazer algo muito "técnico" e imparcial. Espero que gostem.

Em primeiro lugar, gostaria de expressar a minha gratidão e orgulho pela nossa banda e por nós, os fãs. Consegui ingresso para os dois dias graças a um anjo aqui da UV, além de tudo, tive o privilégio de curtir o primeiro show muito bem acompanhado. César, um grande abraço e muito obrigado. Jeanine, pra ti também achei que eu seria o único a chorar em quase todas, acho que a disputa foi acirrada. Abraço também para o Nando mais um recém convertido e meu companheiro nesta semana maravilhosa. Acho que a conotação religiosa da palavra convertido vem bem a calhar porque um show do U2 é uma experiência, no mínimo, espiritual (Obrigado, César, por me ajudar a encontrar a palavra certa).

Depois de muitas peripécias para conseguir pegar dinheiro no banco para comprar os ingressos, fomos, nós quatro, para o Morumbi na segunda-feira. Chegamos lá por volta das 18 horas e fomos para o portão 6, neste dia íamos de arquibancada. Já na entrada me chamou a atenção o bom humor da garotada que estava validando os ingressos, foi muito divertido, de repente a Jeanine surgiu correndo do meio daquelas "cortinas" e eles fizeram a maior comemoração.

Ficamos lá dentro a espera do início do show, bebendo água e nos preparando psicologicamente, tentando adivinhar o setlist, citando aquelas que se eles tocassem nos provocariam um ataque, "Será que vai tocar aquela do Arcade Fire antes?" De repente, ela começou e dali para a frente nada mais foi a mesma coisa.

Já tinha assistido o DVD da tour, já tinha assistido o show de Lisboa, mas quando o Bono apareceu, "enrolado" na nossa bandeira, não consegui me segurar. Eu pensava, "filho da mãe, como é que ele tem coragem de fazer isto, não há coração que resista." Eu chorava feito doido, agradecido por estar ali, vendo a minha banda favorita, em minha própria casa, com ótima companhia, e, acima de tudo, me emocionei ao ter a certeza que o Brasil não é só mais um país onde eles fazem show. Me emocionei ao ver o carinho especial que o U2 tem pela nossa terra.

Começar com City, em São Paulo, foi uma idéia genial e a música passou a ter um significado especial para mim. "And I miss you when you're not around[...] Oh you look so beautiful tonigth, in the City of Blinding Lights." Para verem o carinho especial do Bono ele encerra com "Luckily. Lucky we. Luckily. Lucky me." Não lembro de ter ouvido isto antes.

Veio Vertigo para arrasar. Hora de soltar toda a emoção presa. A energia pairava no ar e o Bono faz a gente acreditar que cada um é importante, é único, e que 70 mil podem fazer a diferença. Quando o Bono saúda o povo com "Oi, galera! Agora é a nossa vez!" Antes de começar Elevation nota-se facilmente o controle que eles conseguem exercer sobre o público. Ao segurar a entrada do resto da banda, eles lançam o público num salto sem pára-quedas até que somos amortecidos por uma rede de segurança.

A energia continua a subir com Until The End of the World, notei que poucos conhecem a música, mas todos cantam "Love, Love, Love" criando uma atmosfera especial e abrindo caminho para a abertura perfeita de "New Year's Day." O bom astral invocado por esta música está estampado na cara do Adam, até hoje estou impressionado com a simpatia e ar de felicidade e prazer que ele apresentou. Pra mim, quando o Bono dá aquele berro no início de New Year's Day quer dizer duas coisas: a voz dele está com tudo e o show é mais do que um show. Sim, há a esperança de um novo dia ainda melhor. "I will be with you again" soou quase como uma promessa.

E o Bono continua mandando em Português: "Copa do mundo. Prontos para o Hexa? U2 é Irlândes. Deus é Brasileiro. Bem vindo, Amapá. Bem vindo, Bahia. Bem vindo, Santa Catarina. Bem vindo, Amazónia. Bem vindo todo o Brasil para um Brasil Novo." Impossível segurar as lágrimas em I Still Haven't Found, nota-se a entrega na voz do Bono, mais do que cantar, ele interpretou a música transformando-a em pura poesia. Cielito Lindo no final fechou com chave de ouro.

Beautiful Day serve para lavar a alma. Acho que foi só aí que começou a "cair a ficha." Só aí que comecei a dar conta do privilégio de fazer parte daquele momento. Impossível não ser um Beautiful Day, estava tudo tão perfeito. Novamente o Bono surpreende fazendo referências exclusivas ao nosso país no middle eight.

Stuck in a moment..., foi maravilhosa, fez relembrar o Michael Hutchence, me fez lembrar às vezes em que ficamos paralisados pelo medo numa situação que não nos beneficia. Esta música é um incentivo para não perder esperanças e lutar sempre. Um pouco do que eu precisava ouvir.

"Para o meu pai." Sometimes you can't make it..., traz memórias tristes, lembro do meu pai que já morreu e fico imaginando como seriam as coisas hoje se ele ainda estivesse vivo. Será que a nossa distância ia diminuir? Será que ele me olharia e se sentiria orgulhoso pelo trabalho que ele fez? Gosto de acreditar que sim, apesar de não ter tanta certeza. Nesta hora uma mão amiga me surpreendeu e me deu um conforto inesperado.

Adoro aquele som do baixo como um coração pulsando no início de Love and Peace, as luzes vermelhas piscando ao ritmo do baixo dão um toque especial. O show começa a esquentar de novo e começamos a pisar o terreno das músicas mais políticas, mais universais, se até aqui havíamos celebrado a individualidade de cada um agora é hora do bem comum e, sem ser piegas, o Bono nos faz acreditar. COEXIST.

Sunday Bloody Sunday mais do que nunca prova ser uma música de paz. Bono vai buscar o "pai" comum às três religiões e pede-lhe que abra os olhos dos seus filhos e acabe com as diferenças, "no more." "We are so sick of this." É de arrepiar ouvir toda a galera cantando o refrão.

Sem nos dar tempo para respirar vem Bullet. Por um daqueles acasos do destino, ou graça divina para os que acreditam, algo simples mas emocionante aconteceu. Eu estava na arquibancada exatamente em frente ao palco e fiquei boquiaberto quando, ao iniciar Bullet, vejo vir lá do fundo, detrás do palco um helicóptero com o holofote apontando para baixo, ele vem em direção ao show, movendo o holofote como se a procura de algo, bem a ver com o clima da música, eu gelei. Até pensei que fazia parte do script, mas não, acho que foi puro, feliz, acaso. Já escrevi uma vez sobre a minha idéia de Bullet ditar o clima do show, ela era obscura na ZooTV, bobinha na PopMart, tudo como as turnês exigiam. Os solos do Edge no Brasil tornaram a música sublime, era como sonhar acordado, como estar em transe era como se entregar de olhos fechados.

Miss Sarajevo veio na perfeição para preparar a Declaração Universal (?) dos Direitos Humanos. Aqui o Bono arrasa como tenor e eu pensava naqueles que gastam linhas e linhas comentando a voz do Bono. Esta é para os descrentes. A Declaração dos Direitos Humanos me toca muito particularmente, principalmente no artigo sobre igualdade, porque ainda discriminamos tanto as pessoas diferentes? Será tão difícil aceitar as diferenças e abraçar a beleza das nossas diferenças?

Pride nunca teve um significado tão especial para mim. Além da emoção de ouvir milhares de pessoa cantando o refrão existe aquele sensação meio piegas e até antiquada de que realmente o amor ainda é a melhor arma. Fomos um pouco mal-educados e saímos do espírito da música ao vaiar a Argentina, mas a cara do Bono foi engraçada, parecia que ele estava esperando já.

Streets é o auge. Realmente eles têm razão em não tirá-la do setlist. Se o show está indo mal, Streets salva. Quando estava indo perfeito como aquele Streets eleva o nível e mostra que há um limite difícil de ultrapassar. Eu só pensava "Que Stones que nada."

Quando os celulares se acendem em One é impossível não ficar impressionado. Até o Bono diz uau. O discurso é perfeito e expressa muito bem a idéia de conviver com as diferenças. O Brasil é um país privilegiado em alguns aspectos: as pessoas convivem em harmonia com as diferentes religiões, crenças e orientações políticas.

Um intervalo é bom para relaxar e se preparar para o que vem.

Aquele gostinho de ZooTV para os fãs mais fervorosos, para os outros, apenas mais uma parte do espetáculo. Vaias para o Lula, um pouco vergonhoso de novo, não vou entrar na discussão política agora, mas vou deixar uma dica, parem de acreditar cegamente na Veja, questionem todas as notícias, isto é o mínimo que alguém consciente pode fazer.

Vamos para Zoo Station, o trem não pode parar. Para mim, grande admirar da Zoo TV, esta parte é perfeita, uma pena quase ninguém conhecer a música. Notei isto nos dois dias, quase ninguém conhece Zoo Station, nem The Fly. Para a minha surpresa, a minha companhia que não era grande fã do U2 (ainda, acho que hoje ele mudou de opinião) curtiu estas duas também.

The Fly foi demais, deu para ter um gostinho de como seriam as mensagens subliminares se a tour tivesse passado pela América do Sul. Eu adoro The Fly, acho super rock'n roll e tenho vontade de sair correndo naquela passarela do Bono. Ainda rolou homenagem para os Stones com o snipet de "I Can't get no (Satisfaction)." O Bono é um gentleman.

Ah, a sensualidade de Mysterious Ways. Quando ele chamou a garota para dançar (sim, sei que ela se chama Katilce, mas na hora eu não sabia). Eu fiquei maravilhado. Digam o que disserem, mas ele faz o que poucas fazem: dançou, da melhor forma que podia. Eu pensei comigo "só no Brasil para ele dar a sorte de escolher uma garota que saiba dançar." Ela encaixou perfeitamente em Mysterious, em vez de se agarrar no Bono como é comum, ela dançou em torno dele, como se tudo fosse parte do espetáculo. Achei perfeito.

Tá, daí em With or Without you ela aproveitou para tirar a casquinha dela, e ele a dele, mas quem não faria o mesmo? With or without you foi sexy, foi como o Amor, hora suave, hora mais forte e no final, aquela sensação de satisfação.

Teve um monte de gente indo embora, acharam que a segunda parte era o bis.

No bis vem as mais calminhas, depois de levar a multidão a loucura a banda dá um descanso e vai aliviando o povo, para que todos saiam felizes e calmos. All Because of You é linda e uma declaração de amor maravilhosa, uma ótima maneira de começar a acalmar. Às vezes eu sou meio lerdo, depois veio Beatles, né? É Norwegian Wood o nome daquela?

As imagens no telão, em Original of the species, foram perfeitas. A tristeza começa a apertar, nem acreditei que estava acabando.

Antes de 40, de novo Bono, nos agracia com a sua simpatia e demonstra o quanto está perdido no meio da nossa gente. Antes dos agradecimentos normais dos shows ele diz: "I don't know what to do now. Where can we go from here, really?" Pela frase e pelo tom de voz arrisco que ele quis dizer algo como, "estou completamente perdido, vocês nos trouxeram ao topo, onde mais poderemos chegar?"

Para encerrar, o U2 no Brasil, não foi uma banda de música, eles foram poetas. Através da música, nos levaram a acreditar no impossível, nos levaram a sentir que se não estamos unidos pelas opiniões e crenças, estamos unidos na busca por algo melhor pela música. Bono não foi um cantor ele foi um maestro, um líder, ele não nos disse o que fazer, ele não nos indicou um caminho, ele nos levou pela mão, ele nos conduziu a um lugar onde sonhar é permitido, tudo isto, ao som de melodias celestiais da maior banda do universo.

Não vou ao mesmo nível de detalhe para a segunda noite, vou apenas apontar algumas "imagens":

- ficar no meio do povo e sentir a energia fluir, poder ver o show abraçado, ficar dentro da "árvore de Natal" dos celulares durante One, uma visão que vai me acompanhar por muito tempo;

- o novo discurso do Bono, em Português (do Brasil): "Ontem cantamos para todo o Brasil. Hoje á a nossa festinha particular";

- a cara preparada dele para as vaias depois de Argentina e do Bush eram muito engraçadas, ele ainda diz, fora do microfone: "Oh, come on",

- a alegria do Adam desfilando pela passarela fiquei muito espantado e contente;

- o beijo do Bono e do Adam, Bono mais uma vez prova que ser carinhoso com pessoa do mesmo sexo não é feio, não é razão para preconceito e arranca as mais diversas reações da galera;

- as novas músicas incluídas no setlist, o privilégio de poder berrar a plenos pulmões "All I Want is You" para que todo o mundo ouvisse;

- o encerramento do show quando os quatro vão até o microfone para agradecer, me emocionei muito, serviu para encerrar a maratona satisfeito e começar a ter saudades do que passou.

Finalizando: demorei para escrever, escrevi demais e não sei se o povo terá saco para ler isto tudo. Vale ainda salientar que voltei do Brasil na quinta-feira depois do show, perdi uma boa parte do resto das comemorações bem como imagens na TV, tudo que escrevo aqui é de memória e ao som do show. Não vi o vídeo ainda. Portanto, perdoem as falhas.

Aos que resistiram até aqui muito obrigado pela confiança.

Aos amigos que me acompanharam lá: meu anjo da guarda, César, que me conseguiu os ingressos, a Jeanine que foi uma ótima companhia e me ajudou a matar a saudade lá do sul e ao Nando, meu anjo, meu adorado amigo, obrigado pelo prazer da companhia de vocês, agradecimentos nunca serão suficientes.


Posted by Zecatelhado at 01:44 PM | Comments (73) | TrackBack

DRAGÃO DO NORTE

* Dragão
Chapéus há muitos...

«Suécia: polícias passam a poder usar turbantes e outros símbolos religiosos

A polícia sueca anunciou hoje uma alteração das restrições aos uniformes que vai permitir aos agentes usarem turbantes, lenços na cabeça e 'kippas' judaicas quando estão de serviço.»
Ou toucados de penas... Ou barretes de pai Natal... Ou gorros e cachecóis do Benfica... Ou bonés mais os respectivos penteados rasta... ou máscaras e carrapitos vudu... ou chapéus mormon... ou ossinhos de canibal... ou tonsuras monásticas... ou barretes de hooligan... ou capuzes do Klu-klux-klan... ou... enfim, há toda uma panóplia de modelos.
Congratulo-me. Afinal, não estamos sós. Não é só aqui, na lusa paróquia, como diz o outro, que é "carnaval todos os dias".
Falta-lhes agora legislar, presumo, sobre a roupa interior. Hoje em dia, nestes "países evoluídos", tão importante como policiar e formatar o que um gajo pensa é controlar que cuecas um gajo veste.
Mas, bem vistas as coisas, não surpreende que a Suécia, com todas as suas maravilhas sociais, seja o país da Europa com maior taxa de suicídio. Este, o dos barretes, é só mais um capítulo nessa mórbida senda. Em rigor, um sintoma evidente de que a epidemia já começa a alastrar dos cidadãos ao próprio Estado.
Ou então, que sei eu, estavam tão entediados, chateados com tanta perfeição social, que decidiram importar sarilhos. Não sei porquê, mas já imagino polícias suecos de turbante aos tiros a polícias suecos de "kippa"; e vice-versa.

Posted by Zecatelhado at 01:43 PM | Comments (0) | TrackBack

ESTENDAL DE LETRAS

* Raúl
Respeita-se muito pouco a vida humana neste País

Respeita-se muito pouco a vida humana neste País
Foram hoje conhecidas as penas aplicadas aos meninos que resolveram brincar com os automóveis e dessa brincadeira resultarem três mortes. Não há disso, temos todos consciência, nem dinheiro, nem pena criminal que pague uma vida. Mas condenar em pouco mais de cinco anos alguém faz desaparecer da vida, três jovens, é no mínimo
andar a brincar com a justiça, independentemente do facto de poderem ser todos amigos e até aqueles que morreram serem capazes de brincar com máquinas que matam e poderem ter sido eles a ceifarem a vida aqueles que agora estiveram no banco dos réus.

Posted by Zecatelhado at 01:42 PM | Comments (0) | TrackBack