INSTANTES

Maria

 

Genealogia das idades

 

“I was once like you are now” (1)

Temos todos, assumidamente, uma relação filial com os mais velhos, com aqueles que nos antecederam, que desbravaram caminhos, coligiram conhecimentos e saberes que hoje nos permitem sermos quem somos, como somos. Somos, sem dúvida, filhos dos nossos pais biológicos mas somos também filhos, directos e indirectos, dos nossos pais culturais e sociais. Seres, cuja recordação muitas vezes nos arranca sorrisos de olhar, pelo carinho e gratidão que se mantém. Sonhos nossos que foram feitos de recordações emprestadas, sem suporte real mas palpáveis. Caminhos delineados em função de palavras escutadas ou lidas, de inspirações de exemplos externos.

“You're still young that's your fault
There's so much you have to go through”
(1)

Mas essa relação de filiação não é pacífica, não é serena. No confronto das idades surge também imposição, surge revolta. Os laços existem para poderem ser atados e desatados, esticados, enrodilhados, desfeitos e refeitos. Os nossos desafios serão sempre os nossos desafios, erros devem ser cometidos também, que da experiência dos outros não podemos fazer sempre o nosso conhecimento, o nosso crescimento. Ciclos e rituais que devem ser cumpridos, metas estabelecidas e ultrapassadas. Novas metas alicerçadas em desafios, argamassadas por sonhos.

"It was said of them, in older times
That the child is the father of the man,
and, yet, in growing, know not the man, and of the man's ways.
He watches the aged ones, old and seemly wise and wonders, could he ever grow to be such as they...."
(2)

Mas somos ainda filhos das crianças que outrora fomos. Somos filhos da evolução que tivemos, de todos os momentos que passamos. Relações parentais aparentemente estranhas. O adulto, refém da criança, das escolhas e decisões tomadas. O velho, filho do jovem.

Responsabilidade imensa, esta, das mais tenras idades, de construir caminho e garantir futuro.

(1) Cat Stevens – Father and son
(2) Magna Carta – Soliloguy 1


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