Sempre???
“- E é aí – disse sentenciosamente o Director
, à guisa de contribuição ao que estava a ser
dito – que está o segredo da felicidade e da vir-
tude: gostar daquilo que se é obrigado a fa-
zer. Tal é o fim de todo o condicionamento:
fazer as pessoas apreciar o destino social a
que não podem escapar.” |
| Huxley, Aldous ; Admirável Mundo Novo, Ed. Livros do Brasil, Col. Dois Mundos, Lisboa, s.d., pág. 31 |
“Ser revolucionário hoje é aceitar um Estado
do qual não se sabe quase nada ou metermo-
-nos numa graça da História da qual se sabe
menos ainda (...) Seria então trapaça pedir
para verificar os dados?”
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| Merleau-Ponty, Maurice (1908-1961); Les Aventures de la Dialectique, Gallimard, Paris, 1977, pág. 340. |
Apercebemo-nos, há uns tempos, da modernidade e da similitude das ideias expressas nas frases citadas. Foram escritas com 20 anos de diferença. Entre a primeira citação e a segunda, medeia a devastadora Segunda Guerra Mundial. Medeia-as um Mundo que corria o risco dos totalitarismos fascistas, de um outro que cavalgava as ondas materialistas da sociedade do Bem-Estar que se instaurava na Europa Ocidental. O ‘Brave New World’ foi escrito em 1932. Em 1955 surgiram ‘As Aventuras da Dialéctica’.
O que há de comum entre estas duas citações?
A volubilidade humana. Ponto.
Dito assim escusamo-nos a entrar por caminhos que nos envergonham como espécie. Dispensamo-nos de banhar-nos no lodo da nossa existência e da nossa fragilidade. Fica dito.
Face ao que vamos escrever a seguir, um ponto prévio: não temos a pretensão de ser melhores do que ninguém, de estar acima da massa, de estar acima da vida em sociedade. Não queremos (Deus nos livre!) ser moralistas. Queremos, atirar umas pedras ao gigante dormente e obtuso que marca o compasso da aldeia em que nos encontramos. Seguramente muitas destas pedras ir-nos-ão cair em cima. É mau! É que nós não temos capacete e temos telhados de vidro... como toda a gente.
Adiante.
Aqui na Planície canta-se que “quem vai casar em terra alheia, podendo casar na sua, ou vai ficar enganado, ou vai enganar alguém.” (E isso deve ser bem verdade... A ‘patroa’ até já nos atirou com esta máxima para cima várias vezes.)
Bom, pressentimos que neste momento o leitor já se interroga quanto à qualidade do vinho na Planície no presente ano. Acalme-se! O vinho está a atirar para a ‘pomada’ e não nos esquecemos do título que demos a esta posta. Acontece que quando se fala em revoluções ficamos de pé atrás. Cá coisas...
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Fotografia de Associações Mutualistas de vários pontos do País que, em 1923, vieram apoiar as lutas laborais dos mineiros de Aljustrel travadas no ano de 1922. (Muita gente teima em esquecer-se da repressão sobre o mundo laboral na 1ª República...) |
Contaram-nos em casa muitas histórias sobre os abusos nos latifúndios da Planície, do uso, completamente anacrónico na Europa, de um senhorialismo terratenente perfeitamente autocrático, inumano e brutal. Sabemos que ainda vivem muitos dos servos da gleba que, ajoelhados, suplicaram pela sua libertação ao General Humberto Delgado. Recordamos, como se se tratasse de uma imagem extra-planetária, os nossos dois colegas de escola (em 1969 ou 1970!!!) –rotinhos, coitados– que seguiam assustados e a pé uma patrulha da GNR a cavalo –soubemos depois que tinham ido ‘roubar’ um saco de bolotas a um dos muitos montados de uma empresa mineira que não as queria para nada -. Há de facto coisas que não esquecem...
E não nos esquecemos que, aquando da visita a uma das vilas desta planície do Professor Marcelo Caetano, as pessoas disputavam sôfregas a sua mão, abraçaram-no, aplaudiram-no, deram-lhe vivas... Nos escritórios da empresa mais representativa da vila ficaram apenas dois funcionários, um deles estrangeiro.
Não esquecemos que o herói do ‘Cantinho da Ribeira’, cantado por tantos revolucionários (segundo as más-línguas adeptos da ‘via alcoólica’ para o socialismo) não era um revolucionário. Era tão só um homem de honra –expressão perfeitamente em desuso e hoje só utilizada nos filmes do Scorcese com o Niro ou com o Al Pacino- que não queria manchar o nome de uma família onde existiam –outra expressão esquisita- 3 moças ‘casadoiras’.
Há de facto coisas que não esquecem. Não esquece que o homem foi morto quando pedia água na ‘ramona’ rodeado de polícias, indefeso, ferido e sequioso –Queres água ‘filhadaputa’? Queres? Toma!(PUM)-, não esquece que o homem se viu embrenhado numa ‘intrigalhada’ de meninos ricos que roubavam cereais ao pai para gastar nos antros boémios alfacinhas dos anos 50 e se desculparam com ele. Há coisas que não esquecem. Não esquece que perante a vergonha da família, (a sua família restrita –mulher e filhas- teve um final infelicíssimo que nos abstemos de contar) perante o opróbrio, um escritor vendeu livros. É difícil ignorar que, anos mais tarde, um familiar deste herói à força questionou, sobre o sucedido, o Manuel da Fonseca. O escritor falou em ‘bandeira’. O homem era uma bandeira! O Matos passou a ser uma bandeira revolucionária desta planície sofrida, suada, sangrenta, heróica!
Não esquece que –mesquinhez nossa...- melhor fez pela honra do Matos um dos estróinas que, arrependido, limpou o nome a todos os Matos contando a verdade!
Os Matos não eram ladrões: eram rendeiros! Eram seareiros honestos.
A bandeira! A bandeira revolucionária! Mas qual bandeira! Qual cravos vermelhos? Qual carapuça?
Faz todo o sentido recuperar parte daquela segunda citação: Ser revolucionário hoje é [...] metermo -nos numa graça da História da qual se sabe menos ainda [do que do Estado]”
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Em 1970 Marcelo Caetano foi apoiado e cumprimentado efusivamente por
muitos futuros revolucionários de circunstância.
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Fossamos frequentemente nas palavras vãs de um revolucionarismo oco, populista, manipulador. Embrenhamo-nos até ao tutano de ‘revolucionários caviar’ e de literatura neoqualquercoisa!
Fartámo-nos de revolucionários ‘porque está na moda’! Porque é ‘giro’! Hipócritas da palavra impressa. Coiros secos e improdutivos.
Há ainda revolucionários? Sois revolucionários?
O que é que já haveis afrontado? A vizinha queque? O polícia de turno? O padre lá da aldeia da avó?
Mas consideram-se revolucionários porquê?
Quantos sapos engolis pela vossa renda necessária? Pelo vosso salário? Pela necessidade de se sentirem integrados nas vossas confortáveis, socialmente bem aceites e revolucionárias tertúlias? Quantos ‘sins’ já haveis proferido apetecendo-vos gritar não? Ou já nada vos apetece a não ser o sossego. O ‘chato’ sossego de Fernando Pessoa? O sossego, só sossego...
Falais de Revolução? Qual revolução? Vá, dizei. De que revolução falais.
Inconsequentes! mil vezes inconsequentes que sois. Dariam vocês a vossa vida por alguma coisa? Envergonhai-vos todos se ides dizer que sim!
Há coisas que de facto não esquecemos... Veio-nos à memória, a este propósito, um filósofo inglês que disse qualquer como: ‘Estou de bem com a Humanidade, não há nada que os homens façam que me desiluda’. E tem razão.
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No 1º de Maio de 1974 rapidamente houve quem se anunciasse a todos como apoiante da Revolução. Um ímpeto que já não lhes vale a pena? |
De resto o herói Salgueiro Maia morreu, o dia 25 de Abril de 1974 foi um dia muito bonito, a maioria dos Capitães de Abril foi às suas vidas. ...e a Associação 25 de Abril equacionou, -ainda equaciona?- há bem pouco, juntar-se ao número das Fundações ‘Revolucionárias’ deste país.
Ah! O funcionário que não foi pegar no Marcelo ao colo já foi apodado, nestes últimos 30 anos, centenas de vezes por fascista, o General Humberto foi assassinado às portas da nossa Planície, um dos meninos rotos está na Alemanha, o outro na construção civil. O Manuel da Fonseca não contou, mas o seu irmão lá disse onde é que ouviu a história do Cantinho da Ribeira: No barbeiro da Praça da República, em Beja! A ‘bandeira Matos’ foi inspirada no poster do Sporting!? (Não é indigno de todo; que grande equipa tinha o Sporting por essa altura...)
O Professor Marcelo Caetano também já morreu. A multidão que o levou para a sua última casa era sensivelmente mais pequena do que aquela que, ufana, o transportava festiva e de braços e sorrisos abertos.
Basicamente continuamos boçais, mesquinhos e invejosos... mas isso também não é preciso vir nenhum filósofo dizer-nos.
25 de Abril sempre?
Nem sempre!...
Ricos tempos... que é como quem diz: ‘O tempora, o mores...’ Pois.
Podemos dizer mais alguma coisa?
Gostaríamos de dizer mais alguma coisa?
Não! É melhor não!