
SAUDAVELMENTE FALANDO |
José Gonçalves |
SERÁ QUE VÊM? |
Estava uma manhã agradável naquele Domingo de Abril. Manhã cedo como era habitual nos Domingos de bom tempo, eu e a minha companheira, colocámos o nosso rebento na cadeirinha e encaminhámo-nos para a praia próxima. Há um fascínio quase infantil, quase doentio pelo mar, a nossa comunhão de ideais ultrapassa muito dos sentires quotidianos, quantas vezes nos interrogámos já, sobre aquele fascínio que nos amarra, que nos impede de habitar no interior. Estava na praia uma brisa leve e o Sol lá no alto brilhava sem pudores. Acomodados numa duna pejada de juncos, aproveitámos o sono do Rodolfo para estirar as pernas e colocar a leitura em dia. A Ana envolvia-se num livro que já nem recordo qual, apenas sei ser de M. Torga enquanto eu debitava a minha atenção sobre as notícias do jornal do dia. Por momentos, recordo ter interrompido a leitura. No céu à minha frente um grupo de gaivotas evoluía num voo gracioso, ora planando ao sabor da brisa, ora batendo as asas para novo alento. Estava ali a liberdade. Pensei. Creio que com uma vincada preocupação, recordo ter olhado talvez embevecido para a minha jovem prol, desatenta das desgraças que faziam a notícia e que abanavam a esperança. Era complicada a sobrevivência numa sociedade corporativista, com a PIDE e a Legião sempre à coca, com o temor de ser detectado por algum “bufo”, com a ameaça permanente do fim ou pelo menos da separação da nossa jovem vivência, da família. E no céu teimosamente, como que desafiando a insegurança dos homens, o bando de gaivotas apostava em demonstrar que a liberdade era tão simples. No ar pairava a promessa do denominado movimento dos capitães, que ameaçara vir buscar os companheiros presos, no “levantamento das Caldas” em Março. No regime transparecia uma arrogância canina, fruto da repressão diária que não descurava a sua sobrevivência. Será que vêm? Interrogava-me com um misto de temor e um frémito de ansiedade, a recordar os tempos da guerra, antevendo a necessidade de pegar em armas, de ajudar a derrubar os fascistas, de instaurar um País novo. Vieram! Uns dias depois e ofereceram-nos um País novo.
|
Para aceder aos comentários carregar
|