QUANDO AS PALAVRAS DANÇAM

Lique

Abril do meu contentamento


Ia um Abril chuvoso e cinzento. Um Abril do (nosso) descontentamento. Como tinham afinal sido tantos meses e anos para trás. Mas ia também um Abril inquieto. Desde o levantamento das Caldas a 16 de Março que pairavam no ar uma série de boatos. Dizia-se que estava em preparação um golpe. Mas grande parte apontava para os ditos “ultras” de direita que não estariam satisfeitos com as águas mornas de Marcello Caetano.

Nesse dia o telefone tocou muito cedo. Cedo demais para o meu sono. Lembro-me vagamente de ouvir a voz da minha mãe atender. Um familiar avisava para ligarmos o rádio. Havia uma revolução. Os militares estavam na rua.

Tocou o telefone na madrugada
Lá longe, lá longe
Revolução…quê?
Qual nada!
Não serão os ultras?
Não serão os outros?
Onde está o botão do rádio?
Levantar, agora?
Quem faz revoluções a esta hora?

Levantada, seja
Deixa lá escutar
Canções estalam
Estas canções???
Gritos de esperança
No meu madrugar
Depressa, expliquem
Mãe, pai, o que é isto?
Digam tudo já ou eu não resisto

E a voz falou
Na cidade parada
Rompeu o silêncio
Disse a palavra
Há tanto esperada
A marcha cantou iniciando o dia
No amanhecer saído do sonho.
Mãe, pai, não digam nada agora
Quero só palavras minhas nesta hora

Hoje não quero fazer balanços. Não quero olhar para estes 31 anos. Quero recordar esse Abril que passou a ser, para sempre, o do meu contentamento.

 


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