OUTRAS MARGENS

Pedro Guedes

Reescrever a história

De nuestros hermanos chegam notícias do súbito interesse do governo de Zapatero pela “simbologia franquista” (assim mesmo, entre aspas, porque nem toda a que parece é). Tal é o empenho, que tem a perseguição ao fantasma merecido algum eco na nossa comunicação social. Ao contrário do que se pensa, o ataque não começou em Madrid, com a retirada da estátua do “Caudillo” da mui central Plaza de S. Juan de La Cruz. Já umas semanas antes a tentação de reescrever a história havia ensaiado a marosca com uns nomes de rua em pequenos ‘pueblos’ algures perdidos por Castela, a ver o que dava. Só então avançaram os socialistas sobre Madrid. E não contentes com o corajoso e invejável feito de apear uma estátua que ainda assim parece fazer-lhes sombra, tomaram-lhe o gosto e partiram para Guadalajara. Agora, andam entretidos numa espécie de ‘Vuelta’ que, segundo desejo da organização, deverá terminar na Basílica de Santa Cruz del Valle de los Caídos, que os tipos - a atirar para o ignorante - julgam ser um monumento fascista, por certo desconhecendo que aí descansam os restos mortais de milhares de caídos na guerra civil - tanto pelo lado nacionalista, como pelo lado republicano.

O disparate não é novo e revela uma das mais estúpidas tentações dos governantes independentemente da sua coloração política: reescrever o mundo dando-lhe a forma que lhes é mais grata no momento. Também por cá se decapitaram estátuas e se mudaram os nomes às pontes, sem que com isso aparentemente o cidadão comum ganhe o que quer que seja, muito pelo contrário. Mais recentemente, no Iraque, os “libertadores” deitaram por terra uma estátua de Saddam, método pouco diferente da simpatia que os talibans demonstraram ter pelos célebres Budas que mandaram pelos ares, tudo copiadinho dos primeiros instintos dos países de leste libertos da tirania comunista. Em matéria de passeio público, as fraquezas humanas e a opinião que se publica convivem mal com o seu próprio espelho e com as linhas continuadoras da História. Suponho que mais dia menos dia veremos alguém em Cuba a dinamitar o Che, ou algum Abramovitch na Rússia a cobrir para todo o sempre a memória de pedra dos pais da revolução de Outubro.

É assim o ser humano e a sua natureza determinada pela circunstância de estar na mó de cima: pisando o derrotado, não trata de salvar sequer a memória colectiva, caminhando a passo apressado para a estupidificação generalizada, para a relativização de tudo, para o desconhecimento do que fomos e do que somos. Nessa altura, as gerações vindouras - desnorteadas e sem referência alguma – caminharão de shopping em shopping, sem mais que lhes sobre. E muito a pensar na minha filha, tenho pena – muita pena - que sejam os vindouros a pagar a fava do analfabetismo de uma classe política (inter)nacional, também ela, cada vez mais desinteressante e obtusa.

 


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