QUANDO AS PALAVRAS DANÇAM

Lique

1º de Maio

 

Chega mais um 1º de Maio. Claro, eu sei o significado do dia. Não vale a pena falar das origens históricas nem das perseguições durante anos e anos. Também sei que existem razões concretas na sociedade portuguesa actual para que os trabalhadores se manifestem e exijam uma intervenção diferente do que tem vindo a ser praticada. E agora até temos um governo socialista (?)…
Mas deixem-me com as minhas habituais interrogações. Será que entre a noção de “festa do 1º de Maio” de uma esquerda mais moderada e o “1º de Maio de luta” de uma esquerda menos moderada, há verdadeiramente alguma diferença e sobretudo será que qualquer das formas de assinalar o 1º de Maio tem alguma eficácia em termos de marcar a posição dos trabalhadores relativamente aos seus problemas?
O 1º de Maio banalizou-se em manifestações sempre iguais e no gritar de slogans que não variam grandemente. Uma espécie de folclore de esquerda.
Acredito que haja uma minoria que sente o Dia do Trabalhador com a intensidade com que deveria sempre ser sentido. E também acredito que outras formas de viver este dia poderiam contribuir mais para uma real consciencialização dos problemas existentes e para a procura de soluções. Mas, na verdade, essas formas diferentes de celebrar não teriam aquele halo romântico da “Grande Marcha” que Milan Kundera tão bem caracteriza como fazendo parte do “kitsch” de esquerda em “A Insustentável Leveza do Ser”

“(…) Ainda morava em Paris e ia de bom grado às manifestações. Fazia-lhe bem ir comemorar qualquer coisa, reivindicar qualquer coisa, protestar contra qualquer coisa, não ficar sozinho, ir para a rua para o meio de outras pessoas. As manifestações que percorriam o Boulevard Saint-Germain ou iam da Republique à Bastilha fascinavam-no. A multidão em marcha, gritando ritmicamente os seus slogans, era para ele a imagem da Europa e da sua história. A Europa é uma Grande Marcha. Uma Marcha de revolução em revolução, de combate em combate, sempre cada vez mais em frente. (…)”

Dito isto, festejemos ou lutemos, ou até as duas coisas, mas com a consciência de que há que encontrar neste dia a força para fazer, de facto, ouvir a nossa voz.

 


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