O Primeiro 1º de Maio
Depois de uma semana em nada igual ao tempo até aí, chegou o dia 1 de Maio.
Eu tinha 16 anos ainda a cheirar a novos. E tinha andado num corrupio doido a beber tudo o quanto podia e a tentar entender.
O muito que tinha aprendido naqueles poucos dias não chegava ainda para perceber o real significado do 1º de Maio. Nem eu o sabia, nem muitos dos que acorremos à Avenida.
Mas fomos. Fomos todos.
Saí de casa com a minha Yashica Minimatic quase roubada ao meu Pai. Rolo novo. Trinta e seis fotografias. Preto e branco, claro. Um luxo que me era permitido poucas vezes na época.
Fui disparando aqui e ali.
À entrada da Rua do Almada uma florista deu-me um cravo vermelho.
- É de papel, menina. Fui eu que o fiz! Não o deite fora. Guarde-o para sempre...
De todo o lado via gente que descia as ruas. Vinham às dezenas e às centenas, com cartazes e faixas de todos os tamanhos. E bandeiras. Traziam a bandeira de Portugal que eu via como nunca vira desfraldar com orgulho.
Quando cheguei à Avenida os meus olhos abriram-se de um espanto maior ainda do que o espanto de ver tanta gente a juntar-se.
Eram milhares, afinal.
Sorrisos. Alegrias. Esperanças.
Neste dia aprendi que cantar o Hino Nacional era uma honra. E pela primeira vez na vida chorei ao cantá-lo.
E ainda guardo o cravo...




