
INSTANTES |
Maria |
Questões de género |
Haverá uma escrita feminina e uma escrita masculina? E essa diferenciação a nível da escrita, a existir, será unicamente a nível dos conteúdos, ou também a nível formal? O tema tem entusiasmado alguns estudiosos que fazem o que é suposto, estudam! E às vezes chegam a algumas conclusões, mas nem sempre. Não sendo eu uma estudiosa, não tenho opinião validada por inquéritos, análises, trabalhos de campo, mas tenho, quão mesmo, opiniões e sentires. A minha perspectiva igualitária diz-me que não deve existir uma escrita feminina e uma masculina, que a existir a distinção, a mesma pode ser um motivo de descriminação ou valorização diferenciada. Que devem existir escritas de pessoas, e que cada uma delas se coloca de determinada forma nas palavras, forma essa que não será imutável ao longo do tempo, mas que muitas vezes será perfeitamente reconhecível. Mas limpando a resistência inicial à diferenciação, sinto em muitos casos diferenças nos temas escolhidos, na forma como são tratados, muitas vezes até nas palavras usadas, nas imagens invocadas. Limpando a resistência inicial, que é fruto maior do mundo em que vivemos, da necessidade de defesa, da reacção por antecipação, orgulho-me de me colocar a mim, mulher, naquilo que escrevo, e nesse sentido, considerar a minha escrita profundamente feminina. Profundamente feminina mas nem assim diferente da escrita profundamente masculina de homens que conheço que se colocam igual e inteiramente naquilo que fazem. Acho que o problema da definição está essencialmente na carga que damos aos adjectivos de masculino e feminino, passando da identificação de feito por, para um conjunto de características, não explícitas e universais, mas implícitas, internas a grupos, e muitas vezes estereotipadas, que nos deixa relutantes no uso e na aceitação do qualificativo. Este mundo dos blogs tem-me dado oportunidade de ir pensando sobre este assunto, na forma como eu escrevo, na forma como outros escrevem, nas assumpções que tomo quando leio artigo e coloco um sexo no seu autor que depois se revela não o correcto. Quantas vezes já me abstenho desses processos divinatórios e deixo em suspenso tal decisão até encontrar variações explícitas do género das palavras que não deixem margem para dúvida. Outras vezes até já me questiono sobre a importância de estabelecer um sexo, uma idade, um contexto profissional e cultural para o autor do que lemos. Mas os estudiosos estudaram, dissecaram a escrita de homens e mulheres, contaram artigos, adjectivos, número de palavras por frase, frases por parágrafo, enfim, parametrizaram a escrita de forma a estabelecer conclusões. E nessa dissecação formal da escrita, conseguiram encontrar divergências, percentualmente definidas, que apontam para a diferença. Não querendo questionar a validade do estudo (que cito de memória) coloco ainda a hipótese de essas diferenças assim contabilizadas resultarem mais de um contexto cultural e social do que de uma estrutura cerebral efectivamente diferenciada. (Não que negue a sua existência, mas como todos sabemos o próprio cérebro se altera pela estimulação de que é alvo.) Porque nós todos somos moldados pelo banho cultural onde somos mantidos desde o berço, porque os nossos estudos, a nossa forma de aprender e ensinar, as conversas com os amigos, as leituras, as viagens, todas essas experiências fazem de nós aquilo que somos. Por exemplo, se eu fizesse agora um inquérito tentando estabelecer a preferência de mulheres e homens pelo cor-de-rosa, acham que a resposta (diferente para os sexos, julgo eu, mas eventualmente sujeita a surpresa) decorria de uma estrutura cerebral diferenciada ou de uma questão de cultura, de educação, enfim de estereótipos? As questões de género fascinam-me, quer sejam na escrita quer noutros campos, perceber o que é inato e o que é apreendido, o somos efectivamente e o que fazem e fazemos de nós, a formação e a formatação, discorrer sobre os diálogos tantas vezes mudos entre os sexos, a sedução, encantos, partilhas… Utopicamente desejaria que quase nada fosse inato, porque assim teríamos a liberdade maior de poder efectivamente construir a nossa vida, de nos moldarmos, de poder assumir os desafios e a eles responder em função do nosso esforço. Em verdade assim não é, existem possibilidades cortadas desde a origem, limites que para alguns serão sempre quimeras inatingíveis, restrições físicas que cortam as asas a mais altos voos. Mas ainda assim a surpresa na ultrapassagem de limitações pode existir, como a que tive com o homem que vi há dias na Rua do Campo Alegre, na zona de pendente mais acentuada, pedalando com esforço na subida. Zona difícil, mais difícil ainda, quando na bicicleta carrega vários objectos, entre eles a muleta com que ampara a falta de uma perna. Senti-me tão pequena na minha vida nessa altura…
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