Os enganos são como luzes que se apagam, escurecendo o compartimento que é a vida.
Com as luzes todas acesas vemos perfeitamente os contornos dos objectos que pontuam esse espaço, reconhecemo-los, e tomamo-los apenas por aquilo que são.
Quando as luzes se vão apagando, os objectos, moldados pelas sombras, tomam outras realidades, e quantas vezes se tornam fantasmas, monstros invencíveis, extraterrestres implacáveis, tudo o que a nossa imaginação, permanentemente de criança, nos sugere.
A cada engano, uma luz se apaga, novas sombras se formam, outros sentidos se inferem.
O que vemos é um misto do que sabemos existir com o que as sombras agora modelam e revelam.
E porque as sombras vão ocultando a realidade, ficam dúvidas permanentes nas mudanças, será que a realidade se alterou a coberto da escuridão, ou serão apenas os nossos olhos, desconfiados, que assim julgam?
Os enganos são como luzes que se apagam, são como luzes que se extinguem, gastas pelos desgastes sentidos sem sentido.
E das luzes apagadas nasce a sombra, nasce o escuro, nasce o medo.
Que outros enganos nascerão destas luzes apagadas, e mais sombras e mais medos.
E no fim, quando todas as luzes enganadas se extinguirem, quando não existir mais sombra porque não existe mais luz, haverá outra sala onde entrar?
Existirão outras luzes, outros sóis, outros sonhos?
Ou apenas espelhos espalhados pelos cantos?