
Deixa ficar essa tigela de lata
aí ao teu lado.
Dorme o sono da bebedeira de ontem,
a que as moedas do dia permitiram.
As horas passam
e tu dormes, sonhas com o neto,
menino loiro que embalaste
no teu colo de homem forte.
Dorme então,
foi-se o tempo das crianças loiras.
Perdeu-se de vez na tua memória
o tempo dos risos e de todo o amor.
Fugiu de ti.
Alguém deitará mais uma moeda
na tigela que ainda está vazia.
Alguém silenciará a consciência
com uns trocos.
Talvez hoje a fome te obrigue a comer
quando a alma só te pede que bebas
para não teres mais nenhuma visão
de criança ou mulher.
Quando vier o orvalho da madrugada
chegarás a ti a manta rasgada,
pedirás de novo ao sono que te embale
e que nada te acorde.